Goma Gringa

LP TRIBO MASSÁHI estrelando EMBAIXADOR

Estamos muito felizes e orgulhosos de anunciar - 44 anos após o lançamento original - o primeiro relançamento 100% oficial desta obra genuína, mítica e considerada um "Holy Grail” da música brasileira entre colecionadores ao redor do mundo!

"Este é um som formado no Brasil. Com todos os membros brasileiros. Mas a finalidade é mostrar a música jovem africana, com todas as suas nuances que caracterizam as origens da música do Continente negro.
Neste disco lançamos muitas coisas curiosas. Partindo do desenho rítmico, que foi baseado nas passadas do camelo, que se enquadra na divisão 4/4, na mesma linha do YÁ YÁ YÁ e SOUL MUSIC, a qual foi dada o nome de OGA, isto, porque em Lagos, capital da Nigéria, é um tratamento íntimo entre amigos. Lá, o homem se sente bem quando é comparado a um OGA (camelo).
Propositadamente e orgulhosamente lançamos este novo e diferente LP tipo exportação, não só dedicado aos discófilos de todo o mundo, como também aos amantes de festas, noitadas em boates, e mesmo para quem estiver amando, pois nas suas duas faces, não há intervalos. É um ritmo louco e contagiante.”



Ouça

Ficha Técnica

FACE A - TIMOLÔ TIMODÊ
A1. WALK BY JUNGLE (Embaixador)
A2. FAREUÁ (José Prates)
A3. HARMATAN (Heitor da Costa)
A4. DANDARA (Embaixador)

FACE B - LIDO’S SQUARE
B1. PAE JOÃO (Wilson Guimarães)
B2. MENINA DA JANELA (Heitor da Costa)
B3. OAN (Embaixador)
B4. MADRUGADA SEM LUAR (Ruy Barbosa)

Pesquisa e Encarte - Itamar Dantas
Remasterização - Michael Graves (Osiris Studio)
Restauração da Capa - Frederic Thiphagne

A capa

• Tive no total 3 edições deste LP feito pelo selo. Duas de 500 cópias no Brasil e uma de 1500 cópias na Europa e distribuida exclusivamente pela Rush Hour
• As duas edições brasileiras vem numa capa dura empastada. A primeira edição é fosca, já a segunda é laminada brilho.
• Vem acompanhado de um encarte assinado pelo jornalista Itamar Dantas - responsável pela pesquisa - que apresenta finalmente a história de Sebastião Rosa de Oliveira, o Embaixador, e da sua banda, a Tribo Massáhi.
• Impressa em 2 cores - preto e pantone - reprodução perfeita da capa original.

Tribo Massáhi estrelando Embaixador, uma história rara

Tribo Massáhi - Estrelando Embaixador, um disco que se tornou lenda entre colecionadores de discos e pesquisadores de música brasileira… O álbum, gravado em 1970, é hoje em dia raríssimo e suas poucas cópias conhecidas são vendidas a altos preços pelo mundo afora.
As características do disco, tanto sonoras quanto estéticas, ajudam a consolidar o mito. Tribo Massáhi - Estrelando Embaixador foi gravado em duas longas faixas contínuas, lado A e lado B, com cerca de 14 minutos de duração cada lado, onde se ouvem canções de pegada pop com fortes influências africanas, “um ritmo louco e contagiante”, segundo texto do próprio álbum. “Este é um som formado no Brasil, com todos os membros brasileiros. Mas a finalidade é mostrar a música jovem africana, com todas as suas nuances que caracterizam a música do continente negro”.

Um dos mistérios que sempre rondaram Tribo Massáhi - Estrelando Embaixador se dá em torno do seu principal personagem. Entre os admiradores do disco, sabia-se apenas que Embaixador participou de um filme com Roberto Carlos - Roberto Carlos em Ritmo de Aventura -, que promovia o álbum homônimo de 1968. Embaixador faz um vilão que corre atrás do Rei no filme de roteiro raso e de gosto duvidoso. A participação de Embaixador lhe rendeu ainda a foto de contracapa da fita VHS, em uma foto onde luta com o galã Roberto em uma de suas participações marcantes na película.
Ruy Ipanema, violonista que conheceu o cantor no início dos anos 1960 e que participou anos mais tarde da gravação do álbum Tribo Massáhi, conta sobre a empolgação de Embaixador em ter participado do filme do Rei. "Cara, eu gostava do Embaixador. Ele ia pro cinema, ficava em frente à bilheteria, mas não entrava. Era para ser reconhecido pelas pessoas quando olhavam para o cartaz: 'É você?’ Ele ficava todo orgulhoso. Era uma figura..."

Outro boato famoso sobre o cantor e líder da Tribo Massáhi é de que ele seria irmão de Tony Tornado, fato contestado pelos nomes de batismo de ambos os músicos atores. Embaixador era filho de Geraldo Rosa de Oliveira e Joaquina Rosa de Oliveira, de Minas Gerais. Já Tony Tornado é da família Vianna Gomes, do interior de São Paulo.

Sebastião Rosa de Oliveira – o Embaixador
Durante a pesquisa para o relançamento deste álbum, seu nome ainda desconhecido surgiu em meio a uma conversa com o pesquisador Nei Lopes: “Você conhece um músico e ator que era conhecido por Embaixador? Sim, claro que o conheci… Era um grande amigo! Sebastião!" Era a chave que faltava para desvendar a história do cantor.

Sebastião Rosa de Oliveira nasceu em Leopoldina-MG, em 10 de setembro de 1934. Filho de Geraldo Rosa de Oliveira e Joaquina Rosa de Oliveira, ainda jovem mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde vieram a se estabelecer.
Foi ao lado do poeta Solano Trindade que Embaixador deu os primeiros passos como ator. O primeiro trabalho na televisão veio no final dos anos 1950, na extinta TV Tupi. Muito desenvolto, logo Embaixador passou a fazer figurações em programas e arregimentar negros para pequenos bicos na televisão.
O apelido Embaixador veio de sua fluência em outros idiomas. Comunicava-se bem em inglês e arranhava outras línguas. Sempre na noite, Embaixador podia ser constantemente visto no Beco da Fome, em Copacabana. Ali, muitos atores estrangeiros se reuniam em busca de oportunidades de emprego. A desenvoltura favorecia o artista a se comunicar com eles e lhes conseguir algum trabalho na televisão. No entanto, era na música que Embaixador se sentia realizado.

Na segunda metade dos anos 1960, o músico montou a banda que iria imortalizá-lo postumamente: a Tribo Massáhi. Em 1970, fruto de uma de suas inúmeras amizades, Embaixador conseguiu o estúdio Rio Som para gravar seu disco. Mas tudo teria que ser feito em apenas um dia. Chamou os músicos, combinou o horário e, no dia marcado, todos estavam lá para o registro.
"Foi tudo combinado de última hora. Avisou no fim de semana que tínhamos que ir na quarta-feira para gravar. ‘Apareçam no estúdio na Rua do Senado’. Eu nunca vi R$ 1 dessa gravação", conta Ruy Ipanema, violonista que nos créditos do álbum aparece com o nome Rui Barbosa, seu nome de batismo.
Com composições do próprio Embaixador, de José Prates, Heitor da Costa, Wilson Guimarães e Rui Barbosa, o disco foi gravado. Ruy Ipanema diz que a gravação foi bem improvisada. “Não tinha arranjos com partituras, essas coisas. Era no máximo a cifra e vamos lá! A gravação durou o dia inteiro”, relembra. Na gravação, a guitarra foi comandada por Toninho Mil Acordes. Quem comandou a bateria foi Aladim. Ruy Ipanema fez participação com seu violão em algumas músicas, inclusive a de sua autoria, “Madrugada Sem Luar”.

Os membros da banda foram rebatizados em dialeto nagô (o que, inclusive, dificultou muito as pesquisas relacionadas ao grupo ao longo dos anos). Na gravação do álbum, estavam presentes Aymmi, Koffi, Korede, Kolawole, DuroTimi, Omopupa, Iyalode e Abeke. Ainda deram canjas os músicos Lápis (sincerro), Romildo (contrabaixo), Rui Barbosa (violão) e Nathalie (voz).
Depois do registro, a banda fez apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio, fizeram temporada na Schnitt, casa noturna do bairro de Botafogo. Em São Paulo, quem os abrigou foi a Casaforte, que também recebia à mesma época cantoras como Beth Viana, que já havia estourado com o hit “Meu Guarda Chuva”. O grupo também chegou a tocar na casa Castelinho, no Rio de Janeiro. “O Toninho na guitarra, eu no contrabaixo e mais um que eu não lembro o nome com um teclado. Naquela época, a gente gostava de dar um trago naquela erva. Cada vez um ia no morro buscar para os outros”, conta Ruy Ipanema.
E foi em uma de suas visitas ao Morro da Providência para buscar maconha que Ruy foi preso em flagrante. Dali, foi condenado a um ano de prisão no presídio Hélio Gomes. Sua cópia do álbum Tribo Massáhi chegaria à cadeia, entregue por Embaixador. “Ele só foi me visitar uma vez durante o tempo em que eu estava na prisão”, conta o músico.

O quase sucesso nos festivais
As atividades da banda continuaram. Em 1971, o grupo participaria do Festival Internacional da Canção defendendo a música "Karany Karanuê", de autoria de Diana Camargo e José de Assis. Com a possível participação, o grupo começou a ter destaque em jornais.

No entanto, a defesa da música no festival não chegou a se concretizar. O jornal O Globo, de 23 de setembro de 1971, registrou a falta do grupo a um dos ensaios para a apresentação oficial. "A canção ‘Karany Karanuê’, de Diana Carmago e Zé de Assis, deveria ter sido ensaiada pela Tribo Massáhi, porém seus componentes não apareceram e a própria Diana cantou", relata a publicação. A música acabou defendida dias depois por Elson, Myrna e a própria Diana, foi finalista e acabou registrada em disco no mesmo ano.

Depois de 1972, não há mais informações do grupo Tribo Massáhi. Da banda formada por Embaixador, ficaram registrados o icônico álbum e um compacto, gravado em São Paulo com a participação do pianista Luiz Mello. Ainda neste ano, Embaixador criou o grupo Trio Moenda, que passou a tocar em um hotel no Rio de Janeiro e depois foi enviado para a Filadélfia sob o nome de Brasil Moenda Trio. Lá, no entanto, o grupo durou apenas seis meses e Embaixador ficou nos Estados Unidos trabalhando como desenhista, outra de suas facetas artísticas.
Em 1985, Embaixador ainda participaria do filme Quilombo, dirigido por Cacá Diegues. Na obra, representou Congo, um dos chefes negros do Quilombo dos Palmares. Em seguida atuaria ainda na série Tenda dos Milagres, baseada na obra de Jorge Amado, onde representou Xangô.
No final dos anos 1980, os trabalhos como ator começaram a escassear e a situação financeira de Embaixador ficou apertada. Sem dinheiro, depois de ter se separado de sua mulher, recorreu a um amigo que o recebeu no Morro do Fubá, onde o músico teve um barraco à sua disposição e uma máquina para fazer silk screen e pequenas costuras. Em sua oficina, fazia adesivos, faixas e cortava moldes de roupas.
Nesta época, trabalhou no programa de Adelzon Alves, então transmitido diariamente pela Rádio Globo. Mesmo em situação difícil, o músico não parava de construir projetos e trabalhar artisticamente. Em edição do Jornal O Globo de 13 de outubro de 1989, o músico falava sobre seu sonho de construir um mercado de música no Rio de Janeiro. Trabalhava para apresentar seu projeto ao prefeito da cidade.

Em 1994, Embaixador foi encaminhado ao Retiro dos Artistas, instituição no Rio de Janeiro que acolhe artistas idosos em dificuldades financeiras. Lá, passou o resto dos seus dias. Chegou à instituição sem nenhum bem, apenas com as roupas do corpo, não teve visitas de familiares, mas não deixava isso transparecer em tristeza. Estava sempre cantando e contando suas histórias.
No entanto, aos 60 anos de idade, sua saúde já não era lá essas coisas. Dois anos depois de sua chegada, no dia 27 de dezembro de 1996, o músico faleceu de infarto agudo do miocárdio. Em seu enterro, compareceram apenas alguns amigos do Retiro dos Artistas e conhecidos mais próximos. Sem ter reconhecimento de seu trabalho em vida, é quase 20 anos depois de seu falecimento que a história de seu disco é desvendada e sua memória é homenageada com o primeiro relançamento oficial de sua obra. Vida longa à obra de Sebastião, Embaixador, que fica agora registrada em maior alcance. Que seus pensamentos alimentem outros sonhadores pelo mundo!

Itamar Dantas, jornalista e pesquisador.

Newsletter